Minha Casa
Saturday, September 1st, 2007Uma expressão muito comum, corriqueia, cotidiana teve seu significado repentinamente alterado, de forma não tão sutil, porém imprevista. Já haviam me falado, nas vésperas da minha vinda à França, que isto iria acontecer, mas realmente eu não tinha compreendido. Provavelmente ainda não compreendo, mas já começo a ver de forma mais clara.
Refiro-me à expressão “minha casa”. Desde que nasci, em 1986, morei nomesmo apartamento em um bairro calmo de São Paulo com minha família. De repente, por dois meses, passei a morar com “pais” franceses e “irmãos” de todos os continentes. Até então, não tinha ocorrido tal mudança de significado. Ela veio a ocorrer precisamentena manhã de hoje, dia 01/09/2007, um dia após minha chegada a Lille,cidade no norte da França, quase na Bélgica, onde passarei meus próximos 2 anos, com possível extensão por mais 6 meses para fazer um estágio.
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Ontem saí de Vichy às 9h37 com destino a Lyon, onde cheguei às 11h50, para pegar um TGV em direção a Lille às 13h44, chegando a seu destino pouco antes de 18h00. Estavam na Gare Lille Europe alguns de nossos veteranos brasileiros e chineses para nos recepcionar e nos ajudar com as malas. Eles haviam alugado um furgão para que nós pudéssemos ir até a residência Léonard de Vinci de metrô sem termos que carregar nossas imensas bagagens (lembrem-se que minha mala teve sua rodinha quebrada, e em Vichy não há nenhuma loja para consertar o problema…).
Chegando em nossa residência, cada um conheceu seu padrinho ou madrinha - um aluno que já está há um ano aqui e que estaria lá para nos ajudar em nossa difícil instalação e adaptação. Tenho uma madrinha muito, muito gente boa que eu já conhecia da Poli e que veio para a École Centrale de Lille já há um ano. Trouxemos minhas bagagens até meu quarto de 20 m^2, meus 20 m^2, meus. Minha casa. Por dois anos, minha casa. Me ajudou a verificar os pequenos probleminhas como manchas nas paredes, um pedaço de azuleijo quebrado no banheiro, um vazamentozinho de água no chuveiro, coisinhas simples, mas que devem ser anotadas para que eu não seja tido por responsável por tais problemas no futuro.
Depois de um belo banho no meu minúsculo box, meu, nossos veteranos nos preparam uma bouffe. Tinha muita comida, e eu, obviamente, comi muito. Comida muito boa, muito boa mesmo. Foi divertidíssimo, conhecemos grande parte dos estrangeiros do G1 (isto é: do primeiro ano da faculdade, meus colegas) como por exemplo chineses, um húngaro, uma alemã,mexicanos, japoneses, uma espanhola. Também conhecemos mais veteranos brasileiros e de outras nacionalidades. Eu ainda comia. Conversamossobre a faculdade, sobre a cidade, a vida aqui no Campus, enfim, passamos muito tempo lá. E eu comia, já disse?
Acabados, cansados após quase uma semana sem dormir, cada um por seus motivos (os meus eram: calor, mosquitos e despedida em Vichy), depois de uma viagem muito longa e cansativa, fomos dormir. Êpa! Não trouxe nem cobertor, nem lençol nem travesseiro. Items que não constam num apartamento vazio (ou quase: só tinha uma mesa gigante, uma estante, uma cama e um criado-mudo). Capotei na cama, me cobri com uma toalha e dormi.
Na manhã seguinte, nossos queridos veteranos tinham nos preparado um grande café da manhã, ao qual se seguiu uma partilha de items de alunos ainda mais velhos que já tinham ido embora. Cada um pegou algumas panelas, talheres, pratos, copos, alguns conseguiram até pegar um forninho elétrico. Levaram-nos depois ao Auchan, em Lille: um supermercado enorme e barato. Fizemos nossas compras inicias para nossas casas. Nossas casas. Coisas que eram novas para mim, com as quais, vivendo com meus pais, nunca tinha me preocupado, coisas que nunca tinham me passado na cabeça de me preocupar. Toalhas, papel higiênico, detergente, sabão, material de limpeza, comida, muita comida, chocolate e queijo nacionais. Ahhh. E ainda há muita coisa que falta, já que não consigo imaginar tudo o quese precisa comprar para a própria casa. Minha casa.
Nossas compras, e quantas, vieram no mesmo furgão que transportou nossas malas (ufa… nem imagino quantas dezenas de quilos de coisas eu comprei). O problema é que minha casa fica no 3o. andar (e conta-se apartir do 0), e sendo uma residência estudantil, não há elevador. Isso tudo depois de eu ter carregado minha mala durante a viagem na véspera e estar com uma fortíssima dor muscular no braço direito.
Comecei a lavar todos os itens que adquiri na partilha, organizei minhas compras, preparei um delicioso sanduíche à base de produtos nacionais e logo em seguida saímos para a Braderie: trata-se de uma grande festa responsável por quintuplicar a população de Lille e transformar todas as ruas da cidade em Vinte e Cincos de Março na época do Natal.
Jantamos por lá, algo que imagino fazer parte de um ritual no qual os antigos alunos levam seus bixos todos os anos: mariscos com fritas. Não sei por que raios tanta gente não gostou.
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É uma mudança grande que deve crescer ainda e cada vez mais. Estou muito feliz com isso, embora com saudades do Brasil. Muitas saudades. Muito feliz. Minha casa.